quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

É o "regabofe" completo...


As quatro maiores instituições de crédito ganharam 3,9 milhões de euros por dia o ano passado.

Apesar de registarem 1,4 mil milhões de euros de lucro, quase o mesmo que em 2009, os bancos Espirito Santo, Santander Totta, BPI e Millenium pagaram menos 168,8 milhões de euros em impostos.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Será que aprendemos algo com o Egipto?


Uma das aprendizagens que tenho feito ao longo da vida é de cariz socrático: descubro que os dirigentes dos estados ocidentais, os paladinos da democracia movida pelo combustível dos serviços secretos, das centrais de informação, dos satélites espiões, do dinheiro para corromper e comprar almas, afinal, só sabem que nada sabem.

O caso mais célebre deu-se com a queda do Muro de Berlim e o rápido colapso do socialismo soviético: a CIA nada sabia, nada tinha previsto. Dez anos antes, quando o ayatollah Khomeini, exilado em França, se preparava para apanhar os restos da queda do regime ridículo do Xá da Pérsia, a Europa via nele uma luz, talvez um pouco folclórica, é certo, mas de esperança libertária para o Irão. Que equívoco extraordinário!

Mesmo assim, nada se aprendeu. Foi possível invadir duas vezes o Iraque para resolver coisa alguma. Foi possível dar armas a Bin Laden e tê-lo depois como o inimigo público número um. Foi possível o 11 de Setembro. Foi possível denunciar armas de destruição maciça que nunca existiram. Foi possível o conflito Israel-Palestina voltar inúmeras vezes ao ponto de partida. Foi possível continuar a errar, a errar, a errar.

Desde os anos 80 que os embaixadores dos países da liberdade e do cristianismo enviam correspondência às suas capitais a alertar para o perigo do fanatismo religioso no mundo árabe. Tinham medo do fanatismo na Argélia. Tinham medo do fanatismo em Marrocos. Tinham medo do fanatismo em Londres e Paris, onde residem grandes comunidades árabes. Tinham medo, em suma, que o fanatismo lhes entrasse em casa.

Ouvi vários sábios e candidatos a sábios dizerem que esse problema, juntamente com o da degradação do ambiente e o da escassez de fontes energéticas, seriam os grandes temas do século XXI. Mesmo assim, nada se aprendeu.

Quando olho para a crise no Egipto e oiço os comentários titubeantes dos grandes dirigentes mundiais, o seu ar embaraçado face ao movimento de protesto, a capacidade de resistência de Hosni Mubarak - que tão apaparicado foi pelos países que agora lhe viram costas - as velhas explicações sobre ramos religiosos que dividem o islão (como se isso explicasse tudo!), a descrição simplista sobre as tendências políticas do país, as conclusões desmentidas pelos factos no dia seguinte, desespero!

Só espero que, de vez, nos convençamos disto: sobre o mundo que não é o nosso, nada sabemos. Só espero que, modestamente, em vez de continuarmos a tentar manipular a realidade, nos calemos, finalmente, para tentar, seriamente, ouvir e aprender.

Crónica de Pedro Tadeu

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Não nos queiram fazer de parvos...


Todos os ''governantes'' [a saber: os que se governam...] de Portugal falam em cortes das despesas, mas não dizem quais, e aumentos de impostos, a pagar pela malta

Não ouvi foi nenhum governante falar em:

. Reduzir as mordomias (gabinetes, secretárias, adjuntos, assessores, suportes burocráticos respectivos, carros, motoristas, etc.) dos três Presidentes da República retirados.

. Redução dos deputados da Assembleia da República e seus gabinetes, profissionalizando-os como nos países a sério. Reforma das mordomias na Assembleia da República, como almoços opíparos, com digestivos e outras libações,tudo à custa do pagode

. Acabar com os milhares de Institutos Públicos e Fundações Públicas que não servem para nada e têm funcionários e administradores com 2º ou 3º emprego.

. Acabar com as empresas Municipais, com Administradores a auferir milhares de euros mês e que não servem para nada, antes acumulam funções nos municípios, para aumentarem o bolo salarial respectivo... Redução drástica das Câmaras Municipais e Assembleias Municipais, numa reconversão mais feroz que a da Reforma do Mouzinho da Silveira, em 1821, etc

. Redução drástica das Juntas de Freguesia.

. Acabar com o pagamento de 200 € por presença de cada pessoa nas reuniões das Câmaras e 75 € nas Juntas de Freguesia

. Acabar com o Financiamento aos Partidos. Que devem viver da quotização dos seus associados e da imaginação que aos outros exigem para conseguirem verbas para as suas actividades

. Acabar com a distribuição de carros a Presidentes, Assessores, etc, das Câmaras, Juntas, etc., que se deslocam em digressões particulares pelo País.

. Acabar com os motoristas particulares 20 h/dia, com o agravamento das horas extraordinárias... para servir suas excelências, filhos e famílias, e até os filhos das amantes.... Acabar com a renovação sistemática de frotas de carros do Estado e entes públicos menores, mas maiores nos dispêndios públicos.

. Colocar chapas de identificação em todos os carros do Estado. Não permitir de modo algum que carros oficiais façam serviço particular tal como levar e trazer familiares e filhos às escolas, ir ao mercado a compras, etc. Acabar com o vaivém semanal dos deputados dos Açores e Madeira e respectivas estadias em Lisboa em hotéis de cinco estrelas pagos pelos contribuintes que vivem em tugúrios inabitáveis...

. Acabar com os "subsídios" de habitação e deslocação a deputados eleitos por circulos fora de Lisboa... que sempre residiram na Capital e nunca tiveram qualquer habitação nos circulos eleitorais a que concorreram!

. Controlar os altos quadros "colocados" na Função Pública (pagos por nós...) que quase nunca estão no local de trabalho. Então em Lisboa é o regabofe total: HÁ QUADROS QUE, EM VEZ DE ESTAREM NO SERVIÇO PÚBLICO, PASSAM O TEMPO NOS SEUS ESCRITÓRIOS DE ADVOGADOS A CUIDAR DOS SEUS INTERESSES, QUE NÃO OS DA COISA PÚBLICA...

. Acabar com as administrações numerosíssimas de hospitais públicos que servem para garantir tachos aos apaniguados do poder - há hospitais de província com mais administradores que pessoal administrativo. Só o de PENAFIEL TEM SETE ADMINISTRADORES PRINCEPESCAMENTE PAGOS... pertencentes ás oligarquias locais do partido no poder...

. Acabar com os milhares de pareceres jurídicos e outros, caríssimos, pagos sempre aos mesmos escritórios que têm canais de comunicação fáceis com o Governo no âmbito de um tráfico de influências que há que criminalizar, autuar, julgar e condenar...

. Acabar com as várias reformas, acumuladas, por pessoa, de entre o pessoal do Estado e de entidades privadas, que passaram fugazmente pelo Estado.

. Pedir o pagamento dos milhões dos empréstimos dos contribuintes ao BPN e BPP, com os juros devidos!

. Perseguir os milhões desviados por Rendeiros, Loureiros e quejandos, onde quer que estejam e recuperar essas quantias para os cofres do Estado.

. E por aí fora... Recuperaremos depressa a nossa posição, sobretudo a credibilidade tão abalada pela corrupção que grassa e pelo desvario dos dinheiros do Estado .

. Quem pode explicar porque é que o Presidente da Assembleia da República tem, ao seu dispor, dois automóveis de serviço? Deve ser um para a "pasta" e outro para a "lancheira"!...

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Como foi notícia o início da Guerra há 50 anos.

"Cem terroristas" atacam o império de Salazar. No rescaldo do desvio do paquete 'Santa Maria', os portugueses são surpreendidos com o assalto a representações em Luanda. Mais do que um golpe contra a ditadura, a rebelião expressa a primeira contestação ao colonizador e inicia o movimento independentista que obrigará à recruta dum milhão de soldados para três frentes de guerra. Salazar reage, pressionado pela comoção popular, mas morre sem achar a solução política que todos querem.

Salazar entrou no seu gabinete em São Bento e viu a primeira página do Diário de Notícias de 5 de Fevereiro de 1961. Sabia o que o esperava porque, no dia anterior, os acontecimentos lhe tinham sido comunicados e parte da noite fora de preocupação sobre o que se atravessava à frente da sua governação.

Não gostou do que estava impresso nas duas colunas da direita, mas ficou agradado com a mancha de notícias que dominava as quatro da esquerda. Aquela que mais o importunava era a notícia de que "Grupos armados tentaram assaltar ontem em Luanda a Casa de Reclusão, o Quartel da PSP e a Emissora Oficial". Aquela que mais bem disposto o deixava era o título que fazia a confirmação pública de que "o paquete Santa Maria voltou à posse do comandante e tripulantes". Uma notícia compensava a outra...

Se nesses dias fosse possível Salazar aperceber-se da verdadeira dimensão do significado dos ataques dos insurrectos em Angola, provavelmente nem uma linha teria sido publicada no jornal, tal como o presidente do Conselho iria mandar que fosse a regra nos anos seguintes, através de censura efectuada pela PIDE, que deixará em branco várias vezes as páginas do jornal dirigido por Augusto de Castro.

As notícias sobre o 4 de Fevereiro de 1961 em Luanda eram no dia seguinte ainda bastante difusas na metrópole, situação que se mantém inalterada até aos dias de hoje devido à inexistência de um esclarecimento definitivo, por via da História, do que foram esses factos e dos seus autores exactos. Se ao regime de Salazar interessava lançar a dúvida sobre a verdade, e até culpar quem interessasse às autoridades - das colónias e em território continental -, também nunca ficou conhecido o verdadeira rosto dos responsáveis por estes ataques independentistas que marcaram o início da verdadeira contestação à manutenção por Portugal das suas províncias ultramarinas.

Nem a história pós-independência de Angola ainda se preocupou com essa investigação e registo até ao momento, justificando-se com a sangrenta guerra civil posterior ao 25 de Abril de 1974 e até com o facto de existir uma história oral que caracterizará a passagem de testemunho nas ex-colónias.

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Nunca é demais relembrar

Alguns dedicam-se obsessivamente aos números e às estatísticas esquecendo que a sociedade é feita de pessoas.

Recentemente, ficámos a saber, através do primeiro estudo epidemiológico nacional de Saúde Mental, que Portugal é o país da Europa com a maior prevalência de doenças mentais na população. No último ano, um em cada cinco portugueses sofreu de uma doença psiquiátrica (23%) e quase metade (43%) já teve uma destas perturbações durante a vida.

Interessa-me a saúde mental dos portugueses porque assisto com impotência a uma sociedade perturbada e doente em que violência, urdida nos jogos e na televisão, faz parte da ração diária das crianças e adolescentes. Neste redil de insanidade, vejo jovens infantilizados incapazes de construírem um projecto de vida, escravos dos seus insaciáveis desejos e adulados por pais que satisfazem todos os seus caprichos, expiando uma culpa muitas vezes imaginária. Na escola, estes jovens adquiriram um estatuto de semideus, pois todos terão de fazer um esforço sobrenatural para lhes imprimirem a vontade de adquirir conhecimentos, ainda que estes não o desejem. É natural que assim seja, dado que a actual sociedade os inebria de direitos, criando-lhes a ilusão absurda de que podem ser mestres de si próprios.

Interessa-me a saúde mental dos portugueses porque, nos últimos quinze anos, o divórcio quintuplicou, alcançando 60 divórcios por cada 100 casamentos (dados de 2008). As crises conjugais são também um reflexo das crises sociais. Se não houver vínculos estáveis entre seres humanos não existe uma sociedade forte, capaz de criar empresas sólidas e fomentar a prosperidade. Enquanto o legislador se entretém maquinalmente a produzir leis que entronizam o divórcio sem culpa, deparo-me com mulheres compungidas, reféns do estado de alma dos ex-cônjuges para lhes garantirem o pagamento da miserável pensão de alimentos.

Interessa-me a saúde mental dos portugueses porque se torna cada vez mais difícil, para quem tem filhos, conciliar o trabalho e a família.

Nas empresas, os directores insanos consideram que a presença prolongada no trabalho é sinónimo de maior compromisso e produtividade. (Certos princípios de Avaliação vão descambar neste ideário e deveras assombrá-lo).

Portanto é fácil perceber que, para quem perde cerca de três horas nas deslocações diárias entre o trabalho, a escola e a casa, seja difícil ter tempo para os filhos. Recordo o rosto de uma mãe marejado de lágrimas e com o coração dilacerado por andar tão cansada que quase se tornou impossível brincar com o seu filho de três anos.

Interessa-me a saúde mental dos portugueses porque a taxa de desemprego em Portugal afecta mais de meio milhão de cidadãos. Tenho presenciado muitos casos de homens e mulheres que, humilhados pela falta de trabalho, se sentem rendidos e impotentes perante a maldição da pobreza. Observo as suas mãos, calejadas pelo trabalho manual, tornadas inúteis, segurando um papel encardido da Segurança Social.

Interessa-me a saúde mental dos portugueses porque é difícil aceitar que alguém sobreviva dignamente com pouco mais de 600 euros por mês, enquanto outros, sem mérito e trabalho, se dedicam impunemente à actividade da pilhagem do erário público. Fito com assombro e complacência os olhos de revolta daqueles que estão cansados de escutar repetidamente que é necessário fazer mais sacrifícios quando já há muito foram dizimados pela praga da miséria.

Finalmente, interessa-me a saúde mental de alguns portugueses com responsabilidades governativas porque se dedicam obsessivamente aos números e às estatísticas esquecendo que a sociedade é feita de pessoas. Entretanto, com a sua displicência e inépcia, construíram um mecanismo oleado que vai inexoravelmente triturando as mentes sãs de um povo, criando condições sociais que favorecem uma decadência neuronal colectiva, multiplicando, deste modo, as doenças mentais.

E hesito em prescrever antidepressivos e ansiolíticos a quem tem o estômago vazio e a cabeça cheia de promessas de uma justiça que se há-de concretizar; e luto contra o demónio do desespero, mas sinto uma inquietação culposa diante destes rostos que me visitam diariamente.

Pedro Afonso

Médico psiquiatra, publicado no

Público, 2010-06-21

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

A política anda mesmo na mó de baixo.


Uma sondagem concluiu que 90 e tal por cento dos portugueses não confiam no(s) governo(s), acham que os políticos se servem em vez de servirem e estão desiludidos com a política, que, devendo ser "res publica", é cada vez mais... "res" privada. Um politólogo ouvido pelo JN não podia descrever a situação de forma mais cruel: "os partidos são máquinas com agenda própria que vivem para os seus dirigentes e quadros e só secundariamente são agentes ao serviço do país". Cenário mais negro do estado a que chegou a política em Portugal dificilmente poderia ser pintado...

Essa desilusão quase generalizada tem reflexo, por exemplo, nos actos eleitorais. Anda muita gente a tentar explicar os 53,37% de abstenção com o comodismo, o frio, a ausência de suspense - e passa alegremente por cima de sinais alarmantes como este: os votos brancos quase atingiram 200 mil. No primeiro caso pode falar-se de "antipolíticos" passivos, mas os votos brancos provêm de "antipolíticos" activos. Ou seja, cidadãos que querem passar a mensagem de que não se revêem em nenhum dos candidatos nem nos seus programas.

Mas há mais - há José Manuel Coelho. Quando se pensaria que ia desistir à boca das urnas, depois de cumprir a tarefa de "dizer mal" do dr. Jardim, sucede que vai em frente e arrecada quase 190 mil votos. Mesmo descontando 46 mil de madeirenses antijardinistas, como explicar que só no continente tivesse recolhido mais de 140 mil votos? Esperariam esses eleitores que Coelho chegasse a Belém? Decerto que não! A exemplo de quem votou em branco, quem votou Coelho o mais que esperaria é que os nossos políticos acordassem de vez para a evidência de que a política anda, por cá, pelas ruas da amargura, é mal amada e nada respeitada.

Crónica de Sérgio Andrade