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quarta-feira, 11 de julho de 2012

O Sr. Administrador e a Troica.


A vidinha do Sr. Coelho como Administrador do Condomínio da Rua Portugal lá ia andando mas cada vez com mais problemas para resolver e dificuldades a enfrentar. Como se não bastassem os problemas do seu Condomínio, noutros condomínios do Bairro Europa as coisas melhor também não estavam… mesmo ao lado, na Rua de Espanha as coisas não andavam lá muito bem…até diziam, pelo bairro que parecia que ali andava tudo a ‘Reinar’ ou seja, andavam todos a brincar… mas pior ainda era umas ruas mais abaixo, no Condomínio da Rua da Grécia onde parece que tudo estava a dar para o torto porque não havia forma de se agradar, como é hábito dizer-se, a Gregos e a Troianos…

Entretanto, com a ‘crise’ instalada o Sr.. Coelho vê-se mesmo aflito e a precisar de fundos para a sobrevivência do Condomínio… Reuniões após reuniões e a Administração chega à conclusão que não consegue, mesmo com todos os cortes e ‘racionamentos’, fazer face as despesas que crescem sabe-se lá por que motivo… isto apesar da excelente gestão que apregoam… assim sendo e sem alternativa, decide comunicar a todos os condóminos que vai ter de falar com os Administradores dos outros condomínios do Bairro Europa e recorrer ao F.M.I. ou seja ao Fundo dos Moradores de Imóveis, também ao B.C.E – Banca de Condóminos de Edifícios e à C.E. - Comissão do bairro Europa, esta última composta por todos os Administradores dos condomínios do Bairro, ou seja tudo junto, FMI, BCE e CE e temos uma ‘Troika’. A partir de então, é que tudo se complica… agora nem para agradar a Gregos nem a Troi(k)anos… e quem se vai ver ‘grego’ são os Condóminos… como sempre!

A dita Troika ou Troica reúne, analisa, pesquisa, indaga, investiga, volta a analisar, prediz , ‘rereanaliza’ e lá chega, por fim, à conclusão que sim senhor, que até podem dar uma ajudinha (sabe-se lá a que preço) mas que vão ser precisos mais uns cortes, mais austeridade, mais umas subidas de taxas, etc… etc… ‘Tudo tem um Preço!…’ não é?

Pronto, lá vem então uma ajudinha para que o Sr. Coelho e a sua Administração possam tentar fazer compor as coisas, se é que vai dar para tanto. A Ver vamos…

Por todo o Bairro Europa e nos condomínios vizinhos da Rua Portugal anda tudo em alvoroço… É a ‘crise, é a ‘crise’… diz-se como que a justificar mas o que é certo é que, por todo o lado, os condóminos protestam, gritam, manifestam-se e, quanto a resultados…, tudo na mesma… ou cada vez pior, cada vez mais pobres, em desespero mesmo… acrescendo que, por todo o Bairro, há cada vez mais taxas e mais elevadas, os condóminos estão apreensivamente em pânico porque não têm nenhuma solução à vista e os Srs. Administradores, para além de nada resolverem…, manifestando aos olhos de quem queira ver não passar por ‘crise’ alguma mas não deixando de apregoar, altruística mas paulatinamente, que estão solidários, que sofrem com cada um dos condóminos e que tudo estão a fazer para ‘dar a volta’ à situação… como se não estivesse tudo já suficientemente de ‘pernas para o ar’ para ainda quererem dar mais voltas a isto… Volta, não volta, querem ver é se dão ‘a volta’ às ideias dos condóminos pelo menos para que continuem a acreditar neles…

E eis que, no meio de toda esta embrulhada, houve eleições no Condomínio da Rua de França. E o Sr. Administrador, o Sr. Sarkozy, bem-amado e tão amigo da Sr.ª D. Merkel, Administradora do Condomínio da Rua da Alemanha, três quarteirões acima da Rua Portugal, perde as eleições para um seu vizinho do 15º Esq. o Sr. Hollande… Desvairada mas sem dar a entender, sempre altiva, a Sr.ª Merkel que, com o seu amigo da Rua de França, punha e dispunha já que são os condomínios com maior riqueza, força e poder, perdeu um aliado e anda agora às voltas sem saber que estratégia ter para continuar a mandar ditando mesmo o melhor para os destinos dos outros Condomínios do Bairro… Coincidências… (É como as ‘Bruxas’) Há quem não acredite mas Que as há… ai isso Há!…

crónica de: Nuno Teodósio

quinta-feira, 10 de maio de 2012

A erva daninha cresce todos os dias…


Tenho um amigo que diz que a erva daninha cresce todos os dias. É verdade, cresce sob diversas formas, cresce quando nos semeia a dúvida se afinal valeu a pena ou não, tantas coisas em que nos empenhamos, cresce quando nos tentam convencer que não valeu a pena nada disso.

Como é próprio das ervas daninhas acabam por absorver e “roubar” outras coisas, a esperança, a alegria, a confiança no futuro. Por outro lado, acabam por semear em nós a incerteza, um sabor meio amargo e pior que tudo o desalento, invadindo assim tudo. As raízes que as ervas daninhas lançam fazem-nos pensar que nem sequer valeu a pena aquele esforço imenso em preparar terreno, aguardar com calma e ansiedade o momento certo, retirar todos os obstáculos, por vezes criar quase do nada as condições ideais, suportar a noite fria que deixou tudo dormente para que numa madrugada radiosa se pudesse ver finalmente as sementes do futuro a germinar.

O problema da erva daninha, apesar de crescer todos os dias, é que ainda assim não consegue minar tudo, nem tão pouco acabar com a vontade de celebrar a primavera, nem controlar as papoilas que não são ervas daninhas, são flores livres que nascem onde escolhem, quando escolhem, e que contra todas as ervas daninhas, exactamente no meio delas, gritam a sua esperança rubra.

Crónica de: Ana Porfírio

domingo, 22 de abril de 2012

Abril


Recordo um um Abril na forma quase viva de gente que antes era triste e obediente e naquela hora saiu à rua com alegria e esperança, gritando por direitos, por justiça, por liberdade. Nos dias que se seguiram, o trabalho ganhou lugar nas canções e a política era tema de conversas que tinham como horizonte o sonho de cada um e a felicidade para todos. Formas de castração intelectual como a censura ou a cultura das crendices e das imposições do destino associadas ao velho regime começavam a ruir. Ao mesmo tempo, todas as possibilidades se revelavam à vontade ativa e crítica de um povo que não queria mais ser calado e enganado. As pessoas começavam a pensar que era possível uma vida melhor e, durante algum tempo, lutaram por isso.

Hoje, nas horas que ajudo a matar pactuando com o absurdo, olho a vida que se consome sem cuidado e que não é, nem de longe, a que os gritos das gentes então reclamavam. Vejo que a tristeza já se vai reinstalando nos corações dos que não andam distraídos. Vejo também que a obediência como forma de vida voltou a instalar-se. A obediência voltou a fechar as gargantas dos que já não lutam pelos seus direitos e decora a voz de uns quantos, eleitos, que não nos governam, mas que em murmúrios agitados se vão governando – vistos daqui, nem se distinguem de meros esbirros de circunstância.

No próximo dia 25, vou usar um minuto em silêncio por uma justiça morta num país onde os parasitas continuam no poder e persistem, impune e estupidamente, em asfixiar quem trabalha, em negar às crianças e jovens a educação que lhes é devida e em impedir a dignidade aos velhos.

No próximo dia 25, vou tentar a alegria de pensar que é possível mudar, que é possível dizer não à tristeza a que a mera obediência condena.

No próximo dia 25, vou comemorar a esperança do Abril que recordo e a liberdade que ainda quero.

Crónica de: Fernando Janeiro.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

O homem que não pode ser fez contas.


O homem que não podia ser era saudável e trabalhava há mais de trinta anos. Num dia em que se dedicou a fazer contas, concluiu que ele e a sua família (quatro pessoas) tinham gasto, nos últimos trinta anos, um valor médio diário aproximado a trinta euros por dia, isto é, menos que trezentos e cinquenta mil euros em trinta anos. Sabia que todo o dinheiro gasto pela sua família tinha sido ganho a título de salário e por contrapartida do seu trabalho e da sua mulher.

O homem vivia com a sua família num apartamento de quatro assoalhadas que adquiriu pagando mensalmente uma prestação de duzentos euros durante trinta anos. Tinha também um automóvel que adquiriu da mesma forma e que lhe custou uma prestação mensal de cem euros durante sete anos. Em trinta anos, o homem e a sua mulher pagaram ao Estado, a título de descontos ou impostos, mais de duzentos mil euros. O homem e a sua mulher tinham contratos com as empresas que os empregavam nos quais se estabeleciam os direitos e deveres e o regime de trabalho e respetivas contrapartidas salariais. O homem sabe que a sua família viveu com dificuldades e com a permanente sensação de não ter dinheiro suficiente para garantir a satisfação das necessidades de caráter básico.

Pensava o homem, até há pouco tempo, que a vida tinha sido dura, mas que tinha vivido bem, tinha conseguido honrar os seus compromissos e pagar as suas dívidas. O homem que não podia ser também sabia que muitas famílias de muitos homens que trabalhavam viviam com muito menos recursos que a sua, o que é o mesmo que dizer que viviam com mais dificuldades.

Mas, durante trinta anos, o homem que não podia ser ouviu contar muitas histórias de homens que acumulavam fortunas sem trabalhar. Porém, diz-se agora que todos estão em dívida e que a dívida é tão grande que o homem que não podia ser e os seus filhos e todas as famílias de gente que sempre trabalhou vão ter que trabalhar a vida inteira e isso talvez não chegue para a conseguir pagar. Diz-se também, dizem-no os governantes, que a solução para a atual crise económica passa pela desvalorização do trabalho, isto é, por mais sofrimento para quem trabalha.

O homem que não podia ser já não quer fazer contas, nem se sente muito inteligente por acreditar que trabalhar e honrar compromissos é uma boa forma de viver.

Afinal, se vale tudo…

Nota: Palavras para quê?

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Com papas e bolos se enganam os tolos…


Esta crónica custou-me um bocadinho a sair, não por falta de assunto mas por excesso. De facto, nos últimos dias, os combustíveis aumentaram várias vezes, rebocando meia dúzia de aumentos consigo, tornando ainda mais difícil o dia-a-dia. Foram ainda empossados em cargos de Administração com salários milionários uma mão cheia de pessoas que passaram já por outros empregos assim, por cargos governamentais que nos trouxeram a este estado, numa triste paródia aos portugueses que não recebem salário ou a quem o salário não chega e que ouvem repetidamente que têm de ser assim Foi por estes dias assinado um acordo por uma Central Sindical que tem como fim a defesa dos direitos dos trabalhadores, acordo esse onde, na realidade, se retiram muitos direitos em nome de uma produtividade e competitividade, que eu, sinceramente, acho que não vai melhorar muito o estado das coisas. Por isso, nem a Central defendeu os direitos de quem representa, antes pelo contrário, nem me parece que isto vá beneficiar a economia nacional, excepto na hipótese da exploração que é feita em grandes grupos económicos. Trabalhar mais horas na Pastelaria perto da minha casa não vai garantir que se vendam mais bolos, até porque, daqui a pouco, ninguém tem emprego, nem salário e, como tal, não os compra. Falando em bolos, um ministro apontou como hipótese de salvação económica a exportação de pastéis de nata. É claro que aqui no Barreiro temos as bolas de manteiga, e, visto por esse prisma, podemos intoxicar o resto do mundo com pastelaria diversa, pastéis de nata feitos com leite holandês e manteiga francesa, claro está, ingredientes provavelmente vendidos numa cadeia de supermercados, dirigida por patriotas, que, com este acordo, podem despedir uns quantos trabalhadores, obrigando os que lá estão a trabalhar mais horas pelo mesmo dinheiro. Os ingredientes vão ter mesmo de vir de fora porque com estas medidas todas fabulosas cada vez produz-se menos por cá. Com um bocado de sorte, o dono patriótico dessa cadeia de supermercados é membro de uma organização mais ou menos secreta, dada a partilhar segredos e influências entre os membros, onde, de avental vestido e cumprimento secreto, cozinham meia dúzia de medidas sem a doçura dos pastéis de nata, mas sim com um amargo de boca para a maioria dos portugueses. Já diz o ditado popular que com papas e bolos se enganam os tolos mas eu não estou muito disposta a engolir histórias da carochinha.

Crónica de: Ana Porfirio