quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

A parte séria da geração parva


A nova canção dos portugueses Deolinda, com o título Parva que Sou, provocou por aí vários fragores. Os mais atrevidos lêem no refrão do tema (que mundo tão parvo/onde para ser escravo é preciso estudar) um novo hino geracional, semelhante ao proporcionado pelas canções de Zeca Afonso ou José Mário Branco. Um exagero. Outros, como o ministro Mariano Gago ou a ex-ministra Lurdes Rodrigues, vêem no refrão uma palermice, capaz até de afastar dos estudos os mais incautos. Outro exagero. No meio disto, ganham os Deolinda, cujo tema, ainda não editado, é já um sucesso...

Postos de lado os exageros interpretativos, há uma parte séria neste assunto. Para a "geração parva", como já é apelidada a chusma de jovens que sobrevivem com mil euros, ou menos, ou que nem estudam nem trabalham, ou que arrisca passar a vida a saltitar de um emprego precário para outro emprego precário, para essa "geração parva" as coisas vão, muito provavelmente, piorar antes de melhorar. Resta apenas conhecer a amplitude do verbo piorar.

A Alemanha, acompanhada da França, toca as notas deste futuro que se desenha a negro. A chanceler Merkel não está disposta a abrir os cordões à bolsa sem que, em contrapartida, os países pecadores como Portugal se sujeitem a uma dura penitência. Em que consiste a dita? Entre outras coisas, a chanceler exige que a evolução salarial ande a par com os ganhos de competitividade. Isto, que alimenta discussões várias, tem uma consequência: soma-se precariedade à precariedade.

Está um país endividado até às orelhas como o nosso, e impossibilitado de desvalorizar a moeda para pagar o que deve, em condições de seguir a receita alemã? É certo e seguro que com um choque de competitividade no curto prazo garantimos mais exportações, mais crescimento económico, mais emprego e finanças mais sãs no médio prazo? Os entendidos na matéria dividem-se, mas todos tomam como certo que a receita será sempre dura. Sobretudo para a "geração parva".

Por cá, os sinais agravam a sensação de que, em 2011, o país não escapará a uma recessão. O impacto das medidas de reestruturação orçamental fez recuar a produção de riqueza no último trimestre de 2010.

De modo que estamos entre a espada que a senhora Merkel tem nas mãos e a parede a que nos deixámos encostar depois de anos e anos de loucura.

Não é um bom sítio para se estar.

Crónica de: Paulo Ferreira

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

80% da população mundial tem falta de protecção social


Oitenta por cento da população mundial carece de mecanismos de proteção social, como pensões, alertou na segunda-feira a Organização Internacional do Trabalho (OIT).

Destak/Lusa | destak@destak.pt

Segundo o diretor do Departamento de Segurança Social da OIT, citado pela agência Efe, apenas 20 por cento da população mundial "conta, na realidade, com acesso a mecanismos de proteção".

Na opinião de Michael Cichon, que falava em conferência de imprensa em Nova Iorque, é ainda "mais escandaloso" do que os dois por cento do Produto Interno Bruto (PIB) mundial destinados a serviços sociais mínimos para a população mais vulnerável do planeta.

"As transferências sociais são a ferramenta mais poderosa e com a qual um país conta para redistribuir as suas receitas e combater a pobreza", sustentou.

De acordo com o responsável, as prestações sociais representam 50 por cento da redução da pobreza na Europa e nos países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico.

Michael Cichon participa esta semana em reuniões da Comissão das Nações Unidas para o Desenvolvimento Social, nas quais se pretende estabelecer bases para uma "rede mínima de proteção social".

As reuniões antecedem uma outra, em junho, entre a OIT e representantes de governos, empresários e trabalhadores dos 183 países-membros da organização.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

O hino da geração de jovens precários em Portugal


Canção dos Deolinda ganha eco em Espanha

A muito badalada canção dos Deolinda ‘Parva que Sou’ fez notícia este domingo no jornal espanhol El País, que a destaca como “O hino da geração de jovens precários em Portugal”.

Destak | destak@destak.pt

O conceitudo periódico fala de um tema que, tendo sido cantado pela primeira vez a 22 de Janeiro, no Coliseu do Porto, obteve tamanho sucesso que a editora da banda decidiu editá-la.

No El Mundo observa-se como a música tem sido partilhada por milhares de pessoas nas redes sociais em Portugal e da forma como muitos jovens adultos se revêem na letra da canção, que versa sobretudo sobre o desemprego numa geração que estuda em vão.

Sou da geração sem-remuneração
e nem me incomoda esta condição...
Que parva que eu sou...

Porque isto está mau e vai continuar
já é uma sorte eu poder estagiar
Que parva que eu sou....

e fico a pensar
que mundo tão parvo
onde para ser escravo
é preciso estudar...

Sou da geração casinha-dos-pais
Se já tenho tudo, pra quê querer mais?
Que parva que eu sou...

Filhos, marido, estou sempre a adiar
e ainda me falta o carro pagar
Que parva que eu sou...

e fico a pensar
que mundo tão parvo
onde para ser escravo
é preciso estudar...

Sou da geração vou-queixar-me-pra-quê?
Há alguém bem pior do que eu na TV
Que parva que eu sou...

Sou da geração

eu-já-não-posso-mais-Que-esta-situação-d­ura-há-tempo-de-mais!
e parva eu não sou!!!

e fico a pensar
que mundo tão parvo
onde para ser escravo
é preciso estudar...

domingo, 13 de fevereiro de 2011

Ao 18.º dia o faraó caiu .


A mensagem durou pouco mais de 20 segundos e pôs fim a 30 anos de poder de Hosni Mubarak, o faraó do Egipto. Ao fim de 18 dias de protestos, o regime cedeu, depois de na véspera Mubarak ter dado o seu último estertor.

Mubarak partiu, mas durante a noite eram muitos os analistas que faziam a mesma pergunta: e os militares, também vão largar o poder que controlam há quase 60 anos?

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

A miséria da esquerda que anda por aí.


Em Portugal, como na Grécia, há, no que se refere à esquerda institucional, um problema adicional particularmente grave, que é o latente estalinismo, que se revelou em todo o seu esplendor, durante o periodo que mediou o anúncio da cimeira da NATO, em Lisboa e a concretização das acções de contestação aos senhores da guerra; como mais à frente se descreverá. Como a desestalinização do PCP nos anos 60 nunca foi feita, dadas as condições de clandestinidade e apersonalidade dominante de Cunhal, os diversos grupos de dissidentes dali saídos foram sempre portadores de uma ganga ideológica e de uma prática autoritária e inquisitorial ainda presente em muitos dos que compõem a esquerda actual; mesmo quando, geracionalmente, não viveram naquele tempo.
Entende-se que a compreensão das insuficiências da esquerda institucional, nomeadamente quanto às características do capitalismo actual, tornarão mais claras as razões das suas atitudes no âmbito dos propósitos deste texto – os eventos de contestação à NATO – e as causas da sua manifesta inoperância, da ineficácia da sua acção, perante as medidas empobrecedoras e repressivas que se abatem sobre a multidão, em Portugal.
Alarguemos, pois os horizontes, na senda de artigos recentes, nomeadamente “Pensar à esquerda, sem vacas sagradas”.

Há um capitalismo global constituido pelas multinacionais, o sistema financeiro e o capital mafioso que cria e enforma as suas próprias instituições regulatórias, todas elas, formalmente, com um âmbito supranacional. Nesse capitalismo global, nesse sistema imperial, não correspondente a um espaço nacional hegemónico, domina uma casta de grandes gestores, banqueiros, detentores de capital especulativo e dos media globais, mandarins e militares de alto coturno.
Este sistema global contém uma hierarquia de burguesias nacionais, com as suas rivalidades e conflitos mas, já não se pode confundir com o sistema primordialmente composto por rivalidades inter-imperialistas, entre burguesias nacionais, com pretensões hegemónicas, como aconteceu, sensivelmente até ao final da Guerra Fria. Contudo, a existência das nações serve, como desde sempre, para dividir os trabalhadores, para alimentar os antagonismos convenientes para beneficiar o capital.
A constituição de um capitalismo global, integrante das nações e, unificando no essencial, as burguesias nacionais num complexo alargado de poder não foi ainda incorporado pela esquerda portuguesa, que continua apenas a actuar contra o seu governo, isolado no seu território. Como aliás as suas congéneres europeias eapesar da (virtual) criação de um Partido da Esquerda Europeia.
Apetece dizer, abaixo os organismos de cúpula, vivam os orgasmos de cópula, memorável frase escrita nas paredes de Lisboa durante o Prec. Acontece que há muito o poder económico tomou conta do poder político; e como esse poder económico é global, o poder político nacional é a agência local do capitalismo global, do império. É, particularmente claro, no momento presente, o escasso poder do governo português, de Sócrates ou do seu sósia Passos, meros robots dos “mercados” e das tutelas do BCE, da Comissão Europeia, do FMI, da comissária Merkel. E, consequentemente, não está presente na prática da esquerda social-democrata – como na das esquerdas institucionais europeias – uma visão internacionalista da luta social e política, que dê prioridade à unidade dos povos europeus contra o capital. Há mesmo quem procure (PC) aliciar, explicitamente, os trabalhadores para um patriotismo ridículo, serôdio, enganador e suicida.


Retirado do artigo: "A miséria da esquerda que anda por aí"

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011